Apesar de ser um material universalmente usado nas construções humanas, o concreto é suscetível a uma série de problemas que impactam na sua durabilidade e resistência. Pensando nesses problemas, pesquisadores holandeses da Universidade de Delft desenvolveram o que pode ser a melhor solução, o Bio-concreto.
Em resumo: o que é bio-concreto
Bio-concreto é um concreto que se autorregenera, desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Delft, na Holanda. Bactérias dormentes misturadas ao concreto são ativadas pela umidade que entra nas fissuras e liberam calcário, que fecha a rachadura.
O custo ainda é a principal barreira para o uso da tecnologia, inclusive no Brasil.
O principal cientista envolvido no projeto, o microbiólogo Henk Jonkers, foi finalista do prêmio European Inventor Award em 2015. “Nosso concreto vai revolucionar a maneira como construímos, pois nos inspiramos na natureza”, afirmou ao receber o prêmio.
Como disse em sua apresentação do projeto, o principal inimigo das estruturas de concreto é a tensão, já que pela natureza do material, com o tempo ele racha e deteriora. O novo material utiliza conceitos de biologia e engenharia mirando ser uma solução que pode se autorregenerar. Uma opção mais barata e sustentável que aumenta o tempo de vida de edificações.

Mas como funciona o novo material? O Blog da Atex destrincha e te conta cada detalhe!
O Bio-concreto
A solução para a autorregeneração do concreto veio diretamente da biologia, mais precisamente do estudo das bactérias. A ideia era utilizar microrganismos dormentes que fossem capazes de sobreviver a um ambiente de alto pH (como é o concreto).
As bactérias são ativadas quando detectam a presença da umidade no ambiente. Isso ocorre justamente em uma situação de fissuras ou rachaduras, que permite a entrada de água na estrutura.
A presença da bactéria na mistura do concreto é justificada por uma propriedade biológica específica, que vamos conhecer agora.
A bactéria
A bactéria tem função primordial no funcionamento do bio-concreto. Os pesquisadores procuravam uma espécie com capacidades bem específicas.
Para função de regeneração da estrutura, a bactéria deve liberar calcário como produto de sua digestão. Justamente esse calcário preenche o espaço aberto em fissuras ou rachaduras.
Já para sobreviver ao ambiente hostil (como o alto pH do concreto), ela deveria ser capaz de formar endósporos, uma estrutura de proteção que permita que ela sobreviva em estado inativo por longos períodos.
O desafio era encontrar uma espécie que atendesse a essas demandas dos pesquisadores. A bactéria só foi encontrada na Rússia, em lagos cujos pHs registrados também são altos como no concreto. A Bacillus pseudofirmus é normalmente encontrada em áreas de alto risco, como crateras de vulcões ativos.
A implementação dela garante um potencial alto de manutenção por um longuíssimo prazo. “O surpreendente é que essas bactérias formam esporos e podem sobreviver por mais de 200 anos nos edifícios”, destaca Jonkers.
Regeneração do concreto
O processo de regeneração do concreto acontece pela alimentação e digestão das bactérias. A mistura do bio-concreto conta com lactato de cálcio, substância utilizada como alimento das bactérias.
No caso de danos como rachaduras, a estrutura interna é exposta à umidade do ambiente, o que ativa as bactérias de sua inércia. Quando elas despertam, passam a consumir o lactato de cálcio da mistura. Na digestão, a Bacillus pseudofirmus libera calcário que ocupa o espaço aberto na patologia do concreto em questão. O calcário produzido é acumulado na região das rachaduras. Esse processo acontece no prazo de três semanas.
No caso de estruturas com o concreto sem a bactéria, o bio-concreto pode ser utilizado como solução de manutenção. Basta pulverizar um material que contenham as bactérias e o lactato de cálcio nas fendas.
O bio-concreto pode recuperar rachaduras de qualquer comprimento, com o porém da largura máxima de 0,8 milímetros.

Custos do bio-concreto
Embora um dos objetivos do projeto seja evitar ou diminuir os custos de manutenção de construções, a implementação da tecnologia ainda bate no preço. O custo de produção na Europa é quase o dobro do concreto comum (este custa por volta de € 80/m³).
O maior contribuinte para o preço é o lactato de cálcio, mas a equipe de Jonkers está desenvolvendo um nutriente baseado em açúcar para baixar os custos, podendo levar o metro cúbico do bio-concreto para a faixa entre € 85 e €100.
A vida útil de 200 anos da bactéria é uma grande vantagem competitiva, já que reduz drasticamente os valores de manutenção. Há um largo potencial sustentável, já que 7% das emissões de dióxido de carbono no mundo são causadas pela fabricação de cimento. Com um material que se autorregenera, parte dessa produção seria reduzida.
Implementação
Com os preços atuais, o bio-concreto é mais indicado para estruturas subaquáticas ou no subsolo, ambientes com maior nível de vazamento ou corrosão.
A primeira estrutura a usar o material foi uma estação de salva-vidas de um lago na Holanda. A edificação protótipo, iniciada em 2011 e sujeita a condições extremas com alta incidência solar e a presença contínua de água, permanece estanque desde a construção.
O bio-concreto também está sendo utilizado em canais de irrigação no Equador, país com grande atividade sísmica. Esses eventos podem provocar rachaduras nas estruturas de concreto, fazendo com que a capacidade de regeneração do material seja colocada a teste.
A barreira do alto custo ainda é o principal empecilho para a viabilização da tecnologia no Brasil, como também acontece com o concreto do ultra-alto desempenho. A expectativa é que os avanços da pesquisa permitam com que o material possa ser mais difundido em construções de todo o mundo.
Perguntas frequentes
Uma bactéria capaz de formar endósporos e sobreviver ao alto pH do concreto, encontrada em lagos de pH alto na Rússia. Ao digerir o lactato de cálcio adicionado à mistura, ela libera calcário.
Segundo o artigo, o processo acontece em três semanas. O material recupera rachaduras de qualquer comprimento, com largura máxima de 0,8 milímetro.
Pode. Em estruturas sem a bactéria, basta pulverizar nas fendas um material que contenha as bactérias e o lactato de cálcio.
Com os preços atuais, em estruturas subaquáticas ou no subsolo, ambientes com mais vazamento ou corrosão.
Segundo o artigo, o custo de produção na Europa é quase o dobro do concreto comum, e o maior contribuinte para o preço é o lactato de cálcio. A equipe de pesquisa desenvolve um nutriente à base de açúcar para baixar esse custo.